Now Playing Tracks

Uma das minhas músicas prediletas é uma das que menos escuto. Também pudera, com uma letra desse tamanho, é quase impossível de ser encaixada na programação das rádios. Aliás, nem lá no comecinho da década de 90 ela fez parte do repertório, sempre considerada uma faixa B dos Engenheiros do Hawai. Com vocês, A Violência Travestida Faz seu Trottoir, de Humberto Gessinger:

A Violência Travestida Faz seu Trottoir

no ar que se respira, nos gestos mais banais

em regras, mandamentos, julgamentos, tribunais
na vitória do mais forte, na derrota dos iguais

a violência travestida faz seu trottoir

Na procura doentia de qualquer prazer
Na arquitetura metafisica das catedrais
Nas arquibancadas, nas cadeiras, nas gerais

a violencia travestida faz seu trottoir

na maioria silenciosa, orgulhosa de não ter
vontade de gritar, nada pra dizer
a violência travestida faz seu trottoir
nos anúncios de cigarro que avisam que fumar faz mal

| a violência travestida faz seu trottoir
| em anúncios luminosos, lâminas de barbear
| armas de brinquedo, medo de brincar
| a violência travestida faz seu trottoir

no vídeo, idiotice intergaláctica
na mídia, na moda, nas farmácias
no quarto de dormir, na sala de jantar
a morte anda tão viva, a vida anda pra trás
é a livre iniciativa, igualdade aos desiguais
na hora de dormir, na sala de estar

a violência travestida faz seu trottoir

uma bala perdida encontra alguém perdido
encontra abrigo num corpo que passa por ali
e estraga tudo, enterra tudo, pá de cal
enterra todos na vala comum de um discurso liberal

| a violência travestida faz seu trottoir
| em anúncios luminosos, lâminas de barbear
| armas de brinquedo, medo de brincar
| a violência travestida faz seu trottoir

| a violência travestida faz seu trottoir
| em anúncios luminosos, lâminas de barbear
| armas de brinquedo, medo de brincar
| a violência travestida faz seu trottoir

Tudo que ele deixou foi uma carta de amor pra uma apresentadora de programa infantil. Nela ele dizia que já não era criança, e que a esperança também dança como monstros de um filme japonês. Tudo que ele tinha era uma foto desbotada, recortada de revista especializada em vida de artista. Tudo que ele queria era encontrá-la um dia (todo suicida acredita na vida depois da morte). Tudo que ele tinha cabia no bolso da jaqueta. A vida quando acaba, cabe em qualquer lugar.
E a violência travestida faz seu trottoir…

não se renda às evidências
não se prenda à primeira impressão

eles dizem com ternura:
"o que vale é a intenção"
e te dão um cheque sem fundos
do fundo do coração

no ar que se respira
nessa total falta de ar
a violência travestida
faz seu trottoir

em armas de brinquedo, medo de brincar
em anúncios luminosos, lâminas de barbear
nos anúncios de cigarro que avisam que fumar faz mal

a violência travestida faz seu trottoir
a violência travestida faz seu trottoir

E Sinatra fez o amor acontecer…

Numa noite tomada pelo tédio, entre suores, lágrimas e cervejas invariavelmente quentes, Frank Sinatra promoveu o encontro mais breve e talvez mais intenso que aquele inferninho presenciou. Cruzar a pista em uma balada cheia é uma aventura de contornos desconhecidos. Ainda mais em uma festa recheada de “amigões”. A chance de um deles, daqueles que tu  não vê há séculos, te parar para botar o papo em dia é fantástica. Dessa vez, não foi diferente. Talvez ele seja o rei dos ”amigões”, tamanha a sua disposição em trocar amenidades e promessas improváveis de um “vamos nos ligar?!”. Só que um boêmio tem que respeitar os deuses que regem a noite. Eles sempre têm uma surpresa reservada nos pormenores da madrugada. E o amigão, com hálito etílico evidenciado, balbuciou palavras confusas e de bate-pronto me apresentou uma morena. Senhores, não era uma morena. Era Laís. Laís é daquelas morenas que comprovam a tese da superioridade castanha no universo. Me perdoem as loiras, mas o castanho é fundamental. Castanho habilmente combinado com olhos verdes pela genética. Franja anos 60 contornando um rosto lindo e um vestido balonê me fizeram sentir em um baile no Lions Clube de um clube do interior, em alguma “década de ouro” perdida no tempo. E para acrescentar contornos dramáticos a minha confusão temporal, um DJ esquizofrênico e incoerente embalou New York, do Sinatra. Laís mal teve tempo de respirar. Saí dançando pelo “salão”, com a morena mais encantadora da noite. Aos poucos, Laís entendeu o que se passava naquela dança. O que estava em jogo não era uma noite de amor. Não era uma vida à dois. Eram 4 dos minutos mais intensos que a vida proporciona. Corpos colados, olhares incautos de todos ao redor, olhar no meu. Um beijo, dois beijos. Só beijos e uma dança. Frank parecia cantar para nós dois, cochichava nos nossos ouvidos. Ele embalou um amor improvável. Um amor com prazo de validade. E assim foi. Frank foi embora e ela também. Mas não esqueci de Laís e seus 4 minutos  suficientes para deixar aqueles lindos olhos verdes guardados na minha retina. Até o próximo Sinatra tocar…

Lucifer me matou num domingo

O diabo só por uma noite não vestiu Prada. Vestiu quando muito uma calcinha vermelha. Quando muito. Lucifer, assim a chamemos, mostrou a verdadeira força do silêncio: hierarquia, domínio, poder… tudo pelo som do inaudível, somente quebrado por estalos de corpos se chocando ora violentamente, ora calmamente. Mas choques foram inevitáveis, constantes, fontes do outro som que quebra o inaudível dessa noite de domingo: o gemido invariavelmente sôfrego. Lucifer escolheu a dedo o domingo. Aproveitou o descanso do Todo Poderoso para me matar. Lucifer me matou num domingo, uma morte fulminante. Eu agonizava e Lucifer sorria, lábios fartos. Eu agonizava e Lucifer me trucidava com um olhar penetrante. Num domingo marcado pela força do silêncio, morri sorrindo. Lucifer me matou num domingo. Alexandre Godoy

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